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A Menina Santa

“Tínhamos 14 ou 15 anos. O mundo tinha a medida exata de nossas paixões. A intensidade das idéias religiosas e a descoberta do desejo sexual nos tornava vorazes. Éramos incapazes em nossos planos secretos. Ao nosso redor, a vida se desnudava, mais rápido que nós mesmas, em sua vasta complexidade. Estávamos atentas porque tínhamos uma missão santa, mas não sabíamos qual era. Cada casa, cada rua, cada lar, cada gesto, cada palavra pedia a nossa vigília. O mundo era monstruosamente belo. Foi quando conheci o Dr. Jano”

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Ainda com todos os meios de poder e controle que Foucault nos apresentou em seus estudos, a caótica mente adolescente nos coloca em um terreno muito mais árido. Esse estado de transformação, capaz de subverter todos os preceitos de uma sociedade hipocritamente religiosa, é o que dá a “A Menina Santa” seu tempero provocativo. Mas, além da puberdade, tema tão caro a nossa história fílmica, Lucrecia mexe com tabus como a figura do médico e a questão dos limites profissionais e pessoais. A exposição profissional pelas mentes distorcidas dos pacientes é jogada para a vida pessoal e o médico vai para a sala de espera das coxias, aguardar o seu diagnóstico perante a sociedade. Caminhos tortuosos que Lucrecia Martel traça com ambígua sabedoria.

Tal hipocrisia trabalhada em ambigüidade crítica não se faz nova, tem sido um marco no percurso desta premiada cineasta argentina. Em seu último filme “A Mulher Sem Cabeça” também brinca com essas incertezas, que ao mesmo tempo colocam a personagem como espectadora dos fatos e interagem com o público, que segundo sua própria moral insere seu julgamento. Talvez seja esse o grande trunfo que tenha feito Lucrecia desde seu primeiro longa-metragem “O Pântano”, cair nas graças européias, que renderam a “A Menina Santa” a louvável produção dos irmãos Almodóvar.

Intrigantemente, mesmo depois do mérito de Cannes que premia “A Menina Santa”, Lucrecia vive o dilema de um reconhecimento muito mais europeu que argentino. Problemática que parece permear por todo o cinema latino americano, dada talvez pelas questões das identidades culturais e das deficiências de distribuição – análise que pode ser trazida também à reflexão do cinema brasileiro.

A Argentina, primeiro país a receber o selo Dogma 95 com o filme “Fuckland”(1999),  vem se firmando na cultura de festivais – com o Festival de Mar del Plata e o Festival de Cinema Independente de Buenos Aires – quenos apresentam outros promissores cineastas como Adrián Caetano, Bruno Stagnaro, Daniel Burman, Lisandro Alonso, Marcelo Piñeyro, Martín Rejtman e Pablo Trapero. Características de aglutinação estética, linguagem asfixiante, economia narrativa e interpretação autêntica traçada por atores amadores convencionaram a relutante identidade de um “Novo Cinema Argentino” – tão relutante como nos apresenta Pablo Trapero e seu célebre discurso ”Não acredito em regras para fazer cinema sob aspecto nenhum, nem nas da nouvelle vague, nem nas do neo-realismo italiano, nem nas do Dogma, nem nas de Hollywood. Cada filme tem suas próprias regras”.

Lucrecia Martel nasceu na cidade de Salta (onde gravou a maioria de seus filmes, incluindo “A Menina Santa”), interior da Argentina. Cresceu numa família de classe média. Teve formação católica até os 16 anos, época em que resolveu afastar-se da igreja e seguir sua própria religiosidade. Ainda na infância, seu pai decidiu comprar uma câmera de vídeo para registrar imagens da família. Martel passou a filmar a movimentação dos familiares dentro da própria casa, logo a prática virou algo compulsivo. Deixava a câmera ligada na cozinha quatro horas seguidas e esperava que as pessoas passassem diante dela. Uma breve passagem biográfica que, junto a todo o contexto nacional, nos dá a semente das implicações de “A Menina Santa”.

Gabriela Jardim Aquino

Comments

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Time 19 de abril de 2010 at 13:28

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