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Canção de Baal

Há certa simetria entre os primeiros longas dirigidos por Helena Ignez (Canção de Baal, 2008) e Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha, 1968). Entretanto é como se tivéssemos que atravessar uma sala de espelhos, pra só então se ver todo o espectro de reflexos entre ambos os filmes. Porque são obras complementares, da mesma forma que foram em vida Helena & Rogério.

Tiveram como inspiração pessoas míticas, mas sedutoramente reais (os outsiders Josef K. em Baal e Acácio no Bandido), e cada qual com seus mentores: seja Welles/Godard/Hendrix ou Brecht/Rimbaud/Einstein antropofagizados. Enquanto Sganzerla escolhe o faroeste/noir para dar conta da sinfonia urbana da Boca do Lixo, no centro de São Paulo, Helena por sua vez se retira para as cores de uma antiga fazenda de café, no interior paulista, pra contar/cantar sua ópera/cabaré. Tudo noelizado com nossa bossa: bom teatro, nas mise-en-scenes ou improvisações; rica banda sonora, fotografia e direção de arte; e o melhor: em uma produção de baixo custo.

Helena leva sua trupe para o sítio do artista visual e diretor de arte Fábio Delduque, onde uma estrutura arcaica renasce em obras deixadas pelos residentes do Festival de Arte da Serrinha. Diante desse deslumbrante cenário, a câmera de Aloysio Raulino, assessorado por André Guerreiro, trafega livremente. Essa é a primeira parceria entre Helena e a também atriz Michele Matalon, que assume a assistência de direção, no que elas passaram a chamar de “teatro rural”. A produção aqui é inversa: não se sai em busca de artifícios para atender ao roteiro, mas sim (em torno de tais elementos e atmosfera), o filme se monta a partir do material que se tem. Um modus operandi que raramente vemos em ficções, e que é mais utilizado em documentários, mas que atende perfeitamente às carências do cinema brasileiro. Helena retoma o cinema de invenção, só que agora em digital.

2018 ou 1918? “Não entendi nada!”. Aqui, sentimos _o pensamento eurocêntrico desembarca nos trópicos. Em 1919, Brecht aos 21 anos, recém tinha voltado da guerra, para em seu anárquico Baal fazer uma crítica feroz aos costumes burgueses da época. Assim como Luz nas Trevas (1919), ainda não se trata de seu “teatro épico”, pois as suas peças só adquirem este aspecto quando ele se volta à luta de classes. Mas como o próprio autor diz é a partir dali que advém tal revolta. É uma peça, influenciada pela vida de François Villon, e de Rimbaud com Verlaine, “aos actores que reclamam os extremos quando não conseguem encontrar soluções no intermédio”. Helena não distancia Baal de nós, mas sim, através do drama, nos envolve com seu cheiro embriagante. É preciso uma boa dose de dialética pra se entender suas recusas, porém fica fácil se a gente observar, como atenta o próprio Brecht, “’as exigências e os desencorajamentos de um mundo que conhece não uma produtividade utilitária, mas exploradora.

Oras, e o que Einstein tem a ver com tudo isso? Ambos no ano de 1919 _um em arte, o outro em ciência_ iluminavam nosso parco e porco mundo das trevas. Baal devora! Baal dança!! Baal glorifica-se!!!

Eduardo Gonçalves Dias

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