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Colheita Negra

Existem cineastas que fazem da História a matéria própria e intrínseca de seu cinema. É o caso de Hsiao-Hsien, Cimino, DeMille. Filmes verdadeiramente históricos que relegam tudo (dos efeitos a música) ao ornamento e investem sua força na estrutura dramática que suporta o filme. Ou seja, todos esses filmes compartilham um afeto especial pela construção dramática como gênese histórica.

A herança do cinema direto é gritante, Robin é o som, Bob, a imagem, e é a partir dessa herança que o cinema australiano (em especial o documental) vai caminhar a partir do final dos anos 70. Colheita Negra é o terceiro filme de uma trilogia iniciada em 84, com First Contact. Nos três filmes o assunto é comum: o processo colonial que se deu em Papua-Nova Guiné. A estratégia de observação do filme é levada ao extremo: são anos de permanência no local, de paciência, de não-intervenção, em suma, é possível notar esse tempo (ou alguma espécie dele) no filme. Desde indícios práticos como o tipo de registro que conseguem como o conteúdo das falas dos moradores da tribo, a proximidade dos cineastas e de seus objetos, até alguma característica da imagem, como na cena de guerra em que todos correm das flechas.

A História para Connolly e Anderson é outra coisa. Não há a construção dramática, pois não há o espetáculo. Um trabalho plano, simples, direto: buscar mostrar de certa maneira, posicionar-se. Não inflacionar a imagem com excessos descontrolados, dúvidas ao esmo, trapaças. Em seguida montar, juntar os planos em seu momento certo. Num país recente independente (1975), o conflito cultural, racial, tecnológico é intenso, e Joe Leahy é a figura que condensa todos esses embates. Não por acaso, todas as fichas do documentário etnográfico são apostadas nele, personagem incrível, que chora e comemora sua partida da ilha.

Marlon Krüger

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