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F For Fake

Último filme completado por Welles, menos que um documentário, trata-se de um “filme ensaio”, algo que parece ser criado diante de nossos olhos, conforme o filme avança em sua duração: um filme sobre falsificação, arte e em que medida os dois se unem a ponto de se confundirem.

F for Fake foi o último filme completado por Orson Welles, embora não houvesse como o saber. Menos que um “filme testamento”, como o são O Sacrifício ou Fanny e Alexander, o filme é, entre outras coisas, uma poderosa reflexão de um artista perante sua obra, o fantasma de Charles Foster Kane perpassa pelo filme (“eu comecei no topo e trabalhei no meu declínio desde então”); um gênio em seu exílio fazendo as pazes com seu passado – embora inadvertidamente reforce e amplie os temas propostos por Cidadão Kane ou mesmo A Marca da Maldade: a relação única existente entre verdade e mentira, o momento em que eles se confundem aponto de ser impossível uma separação, levando-nos a pensar se já houve mesmo alguma separação. Mas Kane é opulento, pesado e genioso, também o era Welles na época, A Marca da Maldade faz da verdade e mentira uma espécie de dança, intensa, tornando-as uma única coisa. F for Fake é outra coisa, seu espírito é brincalhão, galhofeiro e sarcástico, montado cuidadosamente para apenas parecer improvisado, improvisado para parecer cuidadosamente montado, assim é o filme.

Desde o início. Welles confessando-se um charlatão e um espantoso jumpcut, que nos leva de uma estação de trem a um estúdio, confundindo-nos por intermédio de um mero painel branco atrás de Welles (que “atua” como ele mesmo o filme inteiro, outra confusão), e a promessa, falsa, ou não, e do que importa?, de que “durante a próxima uma hora ele apenas falará a verdade”. E tudo no filme parece ser “real” (daí sua brincadeira com o documentário, enquanto gênero e modo de representação) mesmo que nada o seja e vice-versa, afinal, quem estrela o filme não é Welles, Picasso ou Howard Hughes, mas a edição cinematográfica, tornando falso o que é verdadeiro e real o que é mentira: ajudando-nos a ver, “na verdade”, que essas distinções são tão falsas como outrora nos eram verdadeiras.

Gustavo Salvalagio

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