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Feio Eu?

Principiemos pelo fim: “a morte não existe… o que existe apenas é o descuido”. Helena dessa vez perpassa o drama pra concluir, numa alvorada pelo antigo caminho do bonde em Santa Tereza, que tudo não passa de um novo começo.

Vamos além-Brecht: de Augusto Boal à Antonin Artaud! Entretanto, o fantasma que ronda toda a trama são as vozes de Luigi Pirandello. Sem dúvida que para este o público é parte fundamental do espetáculo, porém ele queria com seu teatro que as personagens tivessem autonomia em relação a quem as escreve, e quem as atua. Sua peça mais conhecida, Seis Personagens à Procura de um Autor (1921), parece ser o ponto de partida para uma oficina ministrada por Helena no Cinema Nosso, na Lapa.

Temos um filme que se evidencia pela montagem, teatral e audiovisual. A parceria agora é com Vinicius Nascimento, na trilha e edição, com a coordenação de Ricardo Miranda, e argumento de Barbara, que também dá Vida à Sheila Fernanda. Sandro en-Karnas Arthur Rimbaud do Rosário. E com a especial participação de Célia Maracajá, Helô Beck, Peter Kronos e moradores da Lapa e Complexo do Alemão, e uma galera que só se encontraria mesmo no Rio de Janeiro _ou em Kerala e Paris!

É feio ser eu? Helena não está realizando filmes apenas, e sim dando a oportunidade a quem acompanhá-la _seja atuando, assistindo ou então vivendo_ de deslumbrar o mistério do qual fomos feitos. Sendo. Como seria a vida se fosse um Carnaval o ano todo? Transformar-nos-ia enfim, e em si? Através da mistura de vários métodos e com exercícios de confronto e de desregramento, e até à inversão da linguagem, ela conduz o elenco ao que se esconde em todo o potencial não vivido pelas personagens, montadas no estrito e estreito cotidiano, e que mantemos na maioria das vezes por toda nossa vida.
Jardelina (a pajé ultramoderna!), com seu acelerador de partículas, vaticina o que o vaticano não abomina: “melhor seria nem termos nascido”. A morte é o nascimento da tragédia, é o que liga todos os dramas, como na voz em off da narração do texto “Morte como quase acontecimento”, de Eduardo Viveiros de Castro. Aqui “só me interessa o que não é meu”. E o que não é EU. A profecia ultrapassa o cinema. Pra se tornar carne viva, de um corpo sem órgãos, com uma consciência coletiva que troca de pele entre as eras.

Filme-manifesto, FEIO, EU? se inscreve, nesse mundo de espelhos partidos, na galeria de obras que não têm gavetas. Porque afinal de contas a vida não é um armário, e o Brasil não é pra principiantes. Por um cinema sem gênero, bom e barato, já! Salve Jarda!

Eduardo Gonçalves Dias

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