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Gabbeh

Gabbeh, um tipo de tapete persa, é também o nome da personagem feminina e fio condutor desta fábula do cinema Iraniano. Atravessando as estepes e as estações, Gabbeh espera o consentimento de seu pai para se casar com um cavaleiro que a segue pela trilha de sua tribo nômade. Mas muitos obstáculos prolongam esta espera, como o casamento de seu tio e outros acontecimentos familiares. Da mesma forma que o tapete colorido (carregado de motivos da vida cotdiana de quem o tece), este filme é entrelaçado de arte e poesia, destacando-se especialmente pelas suas imagens, onde as cores compõem telas impressionistas.


A linguagem poética de Gabbeh

Numa conversa com Werner Herzog, Mohsen Makhmalbaf comenta que “no Ocidente, os sistemas são complexos e os indivíduos são simples, especializados em funções como partes de uma máquina. Já no Oriente, os sistemas são simples, mas os indivíduos são complexos. Enquanto os ocidentais têm uma visão científica, dogmática do mundo, os orientais se apegam a uma abordagem mais poética, mística e filosófica da vida.” (fonte: www.makhmalbaf.com).

Dentro desta perspectiva, este diretor iraniano, profunda e ativamente envolvido em questões políticas e sociais, é também um amante e defensor da arte e da literatura, não tendo seguido uma única tendência cinematográfica, mas experimentado várias estilos a serviço de uma linguagem poética que, segundo ele, é essencial quando se quer tocar e cultivar os melhores sentimentos nas pessoas. Neste sentido, Gabbeh é um ótimo exemplo.

Gabbeh é o nome de um tapete persa, colorido e decorado com motivos que transmitem a história familiar de quem o tece. Gabbeh é também o nome da personagem central feminina, integrante do povo Ghashghai, uma tribo nômade que cria ovelhas e usa a lã tingida para tecer os seus tapetes.

Unindo os dois sentidos do mesmo termo, Gabbeh é um conto de fadas étnico que narra a longa espera de uma jovem pela realização de seu amor, enquanto ela atravessa regiões montanhosas com sua família, do mesmo modo em que é preciso paciência para se tecer um tapete com habilidade. Por outro lado, a história não se apresenta de forma tão linear, nem é tão simples como parece, o que reforça a tecitura entre conteúdo e forma, proposta pelo autor.

No filme tingido de um certo realismo fantástico, a jovem Gabbeh surge de um tapete para um casal de idosos, sugerindo ser ela mesma a mulher em idade avançada, e conta sua história como quem a assiste. Além disso, tal como nos fios do tapete, as ações das personagens se entrelaçam e afetam suas vidas mutuamente. Se, quando tecidos, alguns fios ficam soltos para serem aproveitados na trama, mais adiante, algumas cenas do filme, que parecem carecer de continuidade, complementam-se ou são repetidas mais tarde, reforçando as metáforas não explícitas, tais como num poema.

Entre essas metáforas, as que mais se destacam são as imagens de elementos naturais, como as flores, o céu, os campos e principalmente a lã tingida, os quais enfatizam ou representam as emoções vividas por Gabbeh e seus familiares: o vermelho, mostrando a paixão de seu tio pela noiva; o amarelo, o verde e o azul diretamente ligados à vida, à alegria e à juventude; e o preto, mostrando a morte e o sofrimento.

O apelo visual de Gabbeh é complementado pelo aspecto sonoro da natureza, como o som do riacho, a sineta e o berro das ovelhas, o choro da personagem central, o uivo de seu amado e o som das mulheres tecendo seus tapetes (Aliás, o elemento sonoro acabaria por receber maior destaque em um outro filme chamado O Silêncio, realizado um ano depois e que conta a história de um garoto cego cuja percepção da vida é profundamente alterada pelos sons ao seu redor).

De qualquer forma, a cor e a luz parecem ser a matéria prima desta fábula cinematográfica que, por também fazer uso de grandes planos, tanto de paisagens quanto de pessoas em seus momentos cotidianos, lembra a exuberância de quadros impressionistas, onde as cores é que dão forma e contorno aos objetos pintados.

“Vida é cor!”, “Amor é cor!”, gritam as personagens de Gabbeh, como que sintetizando, em palavras, a poesia cinematográfica que Makhmalbaf tece com as belíssimas imagens deste filme.

Daniela Maria Ioppi

Comments

Pingback from MAIS SOBRE O CINEMA IRANIANO | BUTECO DO EDU
Time 31 de janeiro de 2012 at 2:47

[...] pobre coitado, assistir a um filme chamado Gabbeh. E eu vou me valer de uma crítica que encontrei aqui para lhes dar uma noção da situação dramática que Julio Vellozo viveu no cinema. Vejam vocês [...]

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