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Grey Gardens

O primeiro plano de Grey Gardens já nos explicita uma diferença fundamental entre os primeiros longas-metragens de não-ficção dos irmãos Maysles, como Caixeiro-Viajante e Gimme Shelter. Partidários da tradição do cinema direto de Pennebaker, Wiseman, Robert Drew, é bastante curioso que já no primeiro plano, ouvimos alguém se direcionar a Albert, enquanto filma o salão da casa. Não que o cinema direto busque se excluir, se esconder durante a filmagem. É uma questão de neutralização, de minimizar a influência da câmera ao máximo no material que estão captando.

Esse tipo de situação vai se repetir durante Grey Gardens, um filme sobre duas mulheres, mãe e filha, que vivem em uma mansão. Ao acompanhar o dia a dia das duas, que vivem isoladas do mundo há 20 anos, percebemos a relação de dependência emocional, de amor e ódio, culpa, frustração profissional e excentricidade entre elas. No princípio, temos a falsa impressão de que tudo não passa de encenação, mas percebemos que as duas se mostram como realmente são e até competem pela atenção da câmera/diretor/espectador. Ambas vêem na câmera a oportunidade de realizar o sonho antigo de ser cantora e dançarina e, ao mesmo tempo, conseguem a atenção e a credibilidade que tanto necessitam.

Para os Maysles, as técnicas que surgem com o cinema direto possibilitam “encontrar a realidade das pessoas”. A extinção da verdade dita em off, mas sim uma verdade capturada pela imagem, imagens filmadas em instância de emergência, que nos possibilitam ver algum grão do real. Grey Gardens quer penetrar essa realidade e traze-lá para a imagem. No desenrolar do filme, que segue uma estrutura dramática, percebemos que a explicitação da intervenção dos Maysles no filme não parte de uma dúvida dos mesmos sobre aquilo que estão captando é o que consideram a realidade, mas uma solução prática, pois seria praticamente impossível realizar o documentário neutralizando-se, devido a natureza das personagens. Maysles admite que houve uma demanda direta de mãe e filha em interagir com os cineastas, e que seria falso esconder isso do público. É aqui onde se vê uma fratura ética no filme dos Maysles, pois como Rossellini diz: “Não existe uma técnica para agarrar a realidade. Apenas uma posição moral pode fazer isso”. O cinema direto norte-americano, passivo, alcança aqui uma dimensão maior, pois é quando os irmãos Maysles conseguem filmar a si mesmo em frente ao espelho, ou seja, uma participação ativa do cineasta que consegue alcançar momentos autênticos através desse aprofundamento das relações, entre personagem e cineasta.

Fernanda Viana e Marlon Krüger

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