Próximas exibições

Receba a programação por e-mail

Calendário de Exibições

abril 2010
seg ter qua qui sex sáb dom
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930EC

Pesquisar

Textos das sessões passadas

Mala Noche

No longa de estréia de Gus Van Sant, Walt, caixa de uma loja de bebidas, conhece dois imigrantes ilegais mexicanos: Johnny e Roberto Pepper. Perdidamente apaixonado por Johnny, Walt acaba passando a noite com Roberto. O trio tenta se relacionar, divertir, sobreviver e amar em Portland.


Uma noite ruim para Walt. Ele deseja Johnny, mas só tem 15 dólares para oferecer ao garoto. Roberto, o outro mexicano, no entanto, vai até a casa de Walt e transa violentamente com ele. Aproveita e rouba o dinheiro do rapaz. Uma noite ruim, mas Walt parece contente ao caminhar pela manhã, a caminho do trabalho. Eis as relações possíveis de Mala Noche.

Gus Van Sant foi considerado um dos pais do que tem sido chamado de queer cinema, mas o homossexualismo presente no filme nunca é tratado como algo especial, digno de alarde, cuja a bandeira deve ser levantada. Os personagens estão à margem, seja pela sua origem, condição financeira ou opção sexual, mas o olhar não é de quem julga, mas de sincera complacência. Entre a procura e a rejeição, opostos que parecem ser o que une os três personagens principais, há uma alegria que brota sem se notar. Estamos lado a lado com esses personagens, carregados por uma fotografia quase onírica, cheia de grãos e ritmos.

Clima mais acertado não poderia haver para a adaptação de um livro autobiográfico do poeta beat (e consideravelmente desconhecido) Walt Curtis, cujo trabalho surgiu das ruas de Portland, Oregon, cidade onde Mala Noche se situa. Filmado com apenas 20 mil dólares que Van Sant economizou trabalhando com publicidade em Nova Iorque, uma equipe de três pessoas e pouquíssima iluminação, o carisma do filme é fruto em grande parte de sua simplicidade. O cuidado da fotografia, um clima noir à noite, um despojamento da montagem de dia, uma organicidade entre os movimentos dos atores e da câmera na cena de sexo, embalada pelo som de um trem. Escolhas de baixo orçamento que irão ecoar em alguns dos filmes posteriores do diretor.

A carreira que Gus Van Sant constrói depois desse seu filme de estréia, mesmo irregular e heterogênea, revela um gosto pelos jovens desajustados, outsiders. Díficil definir algo além disso que una a sua obra, mas nunca os relacionamentos entre os seus personagens foram tão explícitos e sinceros. Walt tem um interesse carnal pelos dois garotos, anda com eles pela possibilidade de transar com Johnny. Sua paixão acaba tornando-se platônica, mas isso não o impede de tornar-se obcecado. Os mexicanos o toleram pelo dinheiro, pelo calor de sua casa e pelos passeios de carro pelo campo. Um parasitismo mútuo, uma simbiose incomum. Num desses passeios, Johnny e Roberto abandonam Walt na estrada, parando o carro algumas dezenas de metros adiante. Assim que Walt se aproxima, eles se afastam. Chame de obsessão, paixão ou amor inalcançável, não há nada mais elementar que a brincadeira revele.

Thiago Santana

Write a comment