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Minha Vida de Cachorro

Curiosamente a história se passa em 1959 quando o peso-pesado sueco chamado Ingemar Johansson tornou-se campeão mundial derrotando o americano Floyd Patterson. Ingemar (protagonista) aprendeu a lutar boxe junto com Saga, a garota que se veste de menino para poder jogar futebol. Futebol é uma das paixões do tio Gunnar, ele fala da ginga do futebol brasileiro explicado pela primeira conquista do título mundial do país em 1958 em Estocolmo.

O filme se relaciona com a fragilidade dos vidros. É com vidro que Ingemar se machuca em momentos de curiosidade impulsionados pelas descobertas da puberdade; E é numa fábrica de vidros onde está o emprego da maioria dos moradores do vilarejo.

Existe um ditado sueco que diz assim: ‘A vida não são os dias que passam, mas os dias lembrados’. Talvez isso explique os esforços de Ingemar em guardar as melhores lembranças de sua mãe. Nos flashbacks marcados por uma fotografia em soft focus, a mãe é representada de forma saudável e atenciosa, rindo com o filho provavelmente do que mais gostava de ouvir: histórias da vida. Uma lembrança contrastante com a mãe na beira da morte que perde o controle de seus filhos passando a dedicar grande parte do dia às leituras. O soft focus também sugere que Ingemar modificou esta memória ampliando a intensidade desta contrapondo-a a culpa e rejeição que sente em relação à mãe doente.

A Negação e o Isolamento são mecanismos de defesas temporários do Ego contra a dor psíquica diante da morte. Ingemar encontra sua forma de escapismo agindo como Sickan, seu cachorro de estimação, latia durante as discussões da família. Nesses momentos o garoto deseja entender tanto da morte quanto um pequeno vira-lata onde o mundo racional humano foi esquecido e toda raiva pode ser expulsa por latidos. Ingemar isola-se na casinha, entretanto a casinha construída por tio Gunner não é meramente um local de escape.

Ingemar usa-a para fazer suas reflexões em voice over, comparando sua vida à tragédias maiores que colecionou de notícias (como a história da cadela Laika, enviada ao espaço pelos russos sem comida suficiente para morrer em nome do progresso) conseguindo, portanto, visualizar seus problemas de forma afastada redimensionalizando-os a ponto de entender a sorte que teve. Poderia ter sido muito pior. A empatia de Ingemar em relação às tragédias leva o garoto a aprender a lidar com os próprios traumas aceitando a morte como parte da vida. E quanto a morte, este velho tabu, seguimos desorientados como crianças protegidas da verdade pelos adultos acompanhando o ponto de vista do protagonista.

O diretor Lasse Hallström, conhecido até então por dirigir videoclipes do ABBA, soube equilibrar o melancólico com respiros de humor em Minha Vida de Cachorro. O filme lhe rendeu um Globo de Ouro, duas nominações ao Oscar e estadia nos EUA onde mais tarde dirigiria ‘Regras da Vida’ e ‘Chocolate’ permanecendo fiel ao tema de questões familiares.

Caroline Mariga

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