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Mistérios da Carne

Em “Mistérios da Carne”, Gregg Araki se une a Scott Heim (autor do livro que deu origem ao filme) para abordar um tema ainda tabu na sociedade do século XXI – a pedofilia – de uma forma leve e livre da dicotomia moral que assola grande parte das produções ligadas a esse assunto.

À primeira vista, o filme parece tratar cruamente do abuso sexual que os dois personagens centrais – Brian (Brady Corbet) e Neil (Joseph Gordon-Levitt) – sofreram quando crianças, até mesmo porque há, na parte inicial do filme, uma grande introdução dos personagens focada na infância dos mesmos. Todavia, esse não é o caminho que Araki segue. No desenrolar do enredo, com a construção de personagens marcantes e singulares, ele nos mostra como as pessoas aprendem a lidar com um passado doloroso e as defesas que elas constroem para conseguirem suportar experiências traumáticas.

O desempenho dos atores Brady Corbet e Joseph Gordon-Levitt dá força e profundidade ao filme. É incrível como, mesmo com os personagens se abrindo diante de nós, fato exemplificado na cena final, ainda há um mistério, algo a mais que nos instiga, que nos faz refletir, que nos livra do julgamento moral de dizer se os caminhos que eles tomaram foram consequências ou não dos eventos ocorridos na infância; pode-se dizer, também, que o filme funciona tão bem devido ao fato de serem acontecimentos que podem ocorrer dentro do nosso próprio lar, na casa ao lado, na escola que frequentamos.

A partir de artifícios básicos da linguagem cinematográfica, o diretor constrói o terror e a aflição nos espectadores sem ao menos mostrar Neil e Brian com o treinador juntos em um mesmo plano nas cenas de abuso. Tudo ocorre através do plano e contra plano numa montagem natural e fluida que nos faz crer veemente que houve contato entre os atores – o que torna o ‘’incômodo’’ no espectador ainda maior.

Considerado o masterpiece de Gregg Akari, assim como seu primeiro grande filme – seguido de Smiley Face (2007) e Kaboom (2010) – “Mistérios da Carne” foi aclamado pela crítica e recebeu diversos prêmios, entre eles o Jury Award no Bergan International Film Festival. Identidade, memória, trauma, sexualidade, violência e mistério, palavras tão difíceis e carregadas de significado tão controverso são colocadas em ação e sentimento pelo jovem diretor, de forma que é impossível sair do filme sem uma sensação de, no mínimo, estranheza.

Bruna Ramos Pavesi e Luisa Purcino

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