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O Direito do Mais Forte

Franz Biberkopf (R. W. Fassbinder) perde seu emprego como “cabeça falante” em um parque de diversões, no mesmo dia em que encontra um grupo de refinados burgueses e ganha na loteria. Dentre seus novos conhecidos, começa um namoro com Eugen (Peter Chatel). Franz passa a bancar os desejos de seu amado, que tenta ajustá-lo à elegância da alta classe.


Algo bastante presente no cinema de Fassbinder aparece como uma introdução em O Direito do Mais Forte logo em sua primeira cena, quando dois homens se beijam, na presença de policiais e grande platéia, e como reação tem-se nada que não apatia. É como se estivessem nos apresentando a um mundo diferente, realista como o tradicional, mas não reconhecível.

Esses momentos estranhos serão recorrentes ao longo do filme. A apatia de Fox – o protagonista, interpretado pelo próprio Fassbinder – diante da exploração que sofre por seu namorado é talvez um dos exemplos mais desconfortáveis e talvez, por isso, bastante importante para um entendimento do paradoxo entre identificação e distanciamento de onde parte a mise en scène.

A identificação está na forma acessível do melodrama (inspiração que surge em Fassbinder  ao seu contato com os filmes de Douglas Sirk), na empatia facilitada pelos mecanismos ficcionais tão bem constituídos desse gênero e no realismo do jeito como se filma. A simplicidade narrativa dessas escolhas chega ao espectador de forma delicada. O envolvimento com a estória permite que ele se posicione, com bastante liberdade, como sujeito histórico e social.

O distanciamento que se contrapõe à identificação é quase que uma transcriação cinematográfica radical do efeito de estranhamento proposto no teatro por Bertolt Brecht (radical que inclusive quando se pensa o mundo apresentado em relação ao termo original Verfremdungseffekt, que contém as idéias de sentir-se estrangeiro e de alienação), sobretudo por assumir que cinema não é teatro. O estranhamento aparece inesperadamente dentro do melodrama. As interpretações deixam de corresponder ao que se mostra. A música entra em síncope com a dramaturgia.

O filme portanto, interpõe-se, opaco, entre o espectador e a realidade. Com seu realismo – assombrado pelo estranho – que nos remete constantemente à vida, valores morais são postos em crise o tempo todo. A ausência de preconceito contra homossexuais, por exemplo, chama atenção não só por seu próprio contraste com o mundo real, mas também para o conflito de classe ao qual ela é atrelada, algo muito mais importante no desenvolvimento do enredo.

Próximo ao final do filme está uma cena não muito longa, de Fox em seu carro. Esse pequeno conjunto de planos parece uma síntese perfeita de todo o Pathos do filme. Depois de todo o desprezo sofrido por Fox, esse é seu momento de tomada de consciência (a essa altura, angustiantemente tardia). Desolado ele acende um cigarro, liga o rádio e assim permanece. Por apenas um ciclo, o limpador de pára-brisas varre o primeiro plano.

Marcelo Ribeiro e Vitor Viana


Comments

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Time 21 de maio de 2010 at 23:07

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