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Ralé

Em Feio, Eu? (2013), filme anterior de Helena Ignez, vemos a sua personagem Jarda numa passagem pela Índia. E ela volta em Ralé, amazônica missionária da ayahuasca, ressus-citando Sônia Silk, a bela oxigenada. É isso: Ralé é um filme dentro de outros; com a natural _mesmo quando conflitante_ miscigenação das  contribuições desprezadas de todos nossos erros. Como Sganzerla definiria, Ralé é “um filme péssimo e livre, paleolítico e atonal, panfletário e re-visionário _que o Brasil atualmente merece”.

Com uma inspiração sempre nutrida pela dramaturgia, dessa vez vamos aquém-Brecht, até um de seus mestres: o russo Maximo Gorki. A peça Ralé, também conhecida como No Fundo (Na Dnie), é uma coletânea de cenas sem interligação uma com a outra, onde Helena se aproveita dessa desestrutura para atualizar e pintar um panorama da fragmentada sociedade hoje. Um filme mosaico, onde Sônia Silk volta pra rever seu pacto com as forças ocultas que regem essa nação solar, prova de que há muito “trabalho” ainda a ser feito; ou desfeito, principalmente em se tratando de Brasil. Ralé é a oportunidade de terminar uma obra, inconclusa como a própria vida. Antes de tudo é uma reconciliação, como um temeroso passado que agora nos bate novamente à porta.

Eugênio, nosso diretor-mirim alter-ego de Sganzerla (ou Welles?), está gravando “A Exibicionista”, numa clara referência ao Carnaval na Lama, filme de Helena e Rogério feito às pressas quando eles estavam prestes a se “auto-exilarem” no início da década de 1970, por conta da Ditadura no Brasil, e que teve sua única cópia “perdida” numa mostra francesa. Além do que, Ralé se aproveita de muitas cenas de O Poder dos Afetos (2103). Então mais do que fazer filmes, Helena está finalizando. E exatamente por isso, haja macumba! Pois qualquer coisa feita sem dinheiro aqui é um verdadeiro milagre.

O elenco conta com a já conhecida trupe: Simone Spoladore, Djin Sganzerla, Barbara Vida, Ney Matogrosso, e detalhe para a participação de José Celso Martinez. Um encontro de titãs. Michele Matalon e Guilherme Marback na assistência de direção, mas a surpresa agora é a parceria com Dan Nakagawa, que além de atuar compõe as músicas junto com Helena. A trilha é simples, mas bem desenhada, quesito aliás que tem se destacado em seus filmes. Outra excelente parceria foi com as luzes e cores da direção de fotografia de Toni Nogueira, que aliás trabalhou como assistente no filme O Abismo (1977). Prova cabal de que cinema bom é feito entre amigos sinceros, porque é preciso muita cumplicidade.

Mais que amigos, e sim uma família. Ralé é um filme para a família tradicional brasileira. Uma afronta: à afronta que é a moral e os bons costumes. É curioso ver como Helena e Rogério justamente atacam em suas obras as convenções desse modelo de família e, no entanto, com suas vidas nos mostram o contrário. No fundo, e Gorki e Brecht sabiam bem disso, ralé é o que não é ralo, e nem rala.

Eduardo Gonçalves Dias

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