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Sem essa, Aranha

“Está tudo ao contrário!”, “O Brasil tá fora do mapa!”, “Sempre tive a impressão que o diabo ia com a nossa cara”, “O destino da humanidade é horripilante!”, “O negócio é pecar em dobro”.
Último filme da produtora Belair. O banqueiro Aranha vive perigosamente entre três mulheres: uma loira, uma morena e outra negra.

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«No estado de privação de liberdade, a
arte pode evocar a imagem de liberdade,
negando a falta de liberdade».

Walter Benjamin

O painel de um país – mundo – cosmo.

Sem Essa Aranha é um filme sobre o presente – o devemos ver como presente sempre –
embora um presente ferido mortalmente, estamos na iminência de um abismo, sempre,
agonizando. Não existe herança a seguir. Sem Essa Aranha é verdadeiramente um filme
que se mata por overdose: conflagração desse presente.

Sua encenação se dá por meio de complicados mecanismos. As figurações se dão
por corpos doentes, raquíticos. São ao mesmo tempo cantantes e dançantes. Uma
paisagem lamacenta habita não mais do que por, justamente, esses corpos e as pans,
uma câmera esfomeada, arrasando o mundo que vê sem querer fundar outro (e aqui
está a diferenciação clara entre Rogério e Glauber), mas sim refletir sobre esse mundo
a partir desses rastros, fragmentos, restos que os corpos de Jorge Loredo, Helena
Ignez, Maria Gladys, Luiz Gonzaga, Aparecida e Moreira da Silva vão fazer surgir.

Não se isola a doença, porque a doença faz parte integral desse mundo. A doença é
condição para o desespero cósmico que atravessa todo o filme. Renovar o cinema
brasileiro após o Cinema Novo era buscar a cultura no limbo: Sganzerla faz isso com
a música e cinema realmente populares, com uma tradição miserável de vaudevilles
brasileira. Entretanto esses meios de cultura estarão presentes nesses corpos, eles são
privilegiados por Sganzerla para filmar seus ritos e exorcismos. Há, nesses corpos, um
movimento autofágico: eles não representam eles mesmos, mas eles são eles mesmos
de algum modo. Essa dialética autofágica de Sganzerla fica clara com a escolha de Zé
Bonitinho para ser Aranha. Há uma reciclagem de todo um temperamento dos atores
diluído no filme, suas posturas, vozes, ritmos.

Marlon Krüger

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