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A Estória do Violoncelo
A Mão

Na antiga Tchecoslováquia, o teatro de bonecos e marionetes sempre teve grande tradição, sendo considerado importante mundialmente até hoje, assim como seus realizadores; após a segunda guerra, alguns desses títeres migraram para o cinema de animação – entre eles estava Jiri Trnka, um dos mais reconhecidos.

Apesar de Trnka utilizar em suas animações prioritariamente bonecos com uma baixa variação de movimentos, consegue levar aos espectadores um alto grau de emoção, através de manuseio e qualidade técnica, principalmente de luz e cenários; o enredo é outra razão de seu sucesso, pois consegue abranger uma alta gama de espectadores – tendo hoje seus filmes o rótulo de ‘para toda a família’. São características como estas que lhe deram o título de Walt Disney do leste, título considerado depreciativo por muitos, pela quantidade de técnicas de animação que ele utilizava em seus filmes, bem como pela base que ele deu para a animação tcheca e mundial.

Quanto a seus curtas, neles existe um enredo mais crítico, eliminando em muitos o happy end. Em ‘Estórias do Violoncelo’, o clima romântico apresentado camufla alguns pontos da sociedade tcheca da época, como a submissão do artista ao governo. Tal aspecto é explicitado no curta ‘A Mão’, obra máxima e pré-cognitiva do autor, que mostra o artista se sujeitando aos desejos do Estado até que esse o leve a seu fim, após o que o condecora, em sua morte.

A ironia política também está presente no trabalho de Jan Švankmajer. Vendo nas metáforas uma tangente para as barreiras pré-ditadas pelo regime comunista – Švankmajer foi afastado do cinema nos anos 70, e teve filmes banidos -, ele é muitas vezes irônico em suas narrativas, apesar de alguma simplicidade aparente; objetos e temas usuais tomam outra forma e motivo – a liberdade, os relacionamentos, a decadência e a sociedade são jogados e destroçados, remontados e expostos.

Tendo realizado seu primeiro filme em 1964 (O Último Truque), Švankmajer mostra um pouco da influência de Trnka, mas parte para um estilo mais ‘visceral’; visceral no sentido de primitivamente humano ou natural; e as estórias e imagens de seus filmes parecem trabalhar com mente ou raciocínio excêntricos, incomuns, como da perspectiva de uma criança: “Ambos, infância e sonhos são as constantes básicas de meus filmes, um retorno à minha infância e aos meus sonhos. Eu acredito que todo artista cria sua obra destas duas fontes, porque estas são as experiências mais fortes”. O que remete também a um tom de obscuridade que perpassa alguns filmes, também relacionado ao Surrealismo – Švankmajer entrou no Grupo Surrealista de Praga em 1969, do qual ainda faz parte.

 “As pessoas [...] acreditam que o Surrealismo está confinado ao tempo do entre-guerras – aos anos entre 1924 e 1938 – e depois disso, historiadores de arte não estão muito interessados nisto. Mas o Surrealismo é um organismo vivo para mim e para meus amigos do Grupo Surrealista na Tchecoslováquia. Surrealismo não é estética, é uma filosofia.” (Jan Švankmajer)

 Inovadores, Trnka e Švankmajer – embora diferentes em seus meios – dotam a animação não apenas de entretenimento, mas de raciocínio e ambivalência, que atinge o espectador em sua forma e assunto; um valor notório, embora pouco popular no cinema de animação atual. 

Rafael Grigoletto e Saulo Rosa

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