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Dead Man

O início de Dead Man pode até nos recordar do enredo de um western clássico: O Homem que Matou o Facínora. A chegada do homem do leste no inóspito oeste, toda sua discrepância com relação aos outros viajantes do trem, a sua ausência de arma (a personagem de James Stewart no filme de Ford dizia que seus livros eram sua arma, aqui, Blake carrega uma maleta).

      Maleta, esta irrelevante, pois o filme de Jarmusch foge completamente dos conflitos que geralmente temos nos westerns (bem x mal, leste x oeste) para criar uma poética viagem rumo à inevitável morte.

      William Blake (referência ao poeta britânico) chega de Cleveland na cidade de Machine, lá busca um emprego prometido, mas no final das contas acaba por assassinar o filho do todo-poderoso da cidade (o filho chamado Charles Dickinson, qualquer relação não é mera coincidência) e ser perseguido por três assassinos de aluguel pela floresta dos arredores.

      Nessa jornada ele se encontra com Ninguém, seu alter-ego personificado por um índio sem tribo que vaga errante pelas matas, o indígena se dispõe, através de sua pouco compreensível filosofia, a transformar Blake em um matador de homens brancos. Em um momento de solidão, como previsto por Ninguém, a personagem de Depp se altera para um indivíduo mais calculista, o assassino que Ninguém previu.

      Em contraponto, os três assassinos de aluguel, que podemos chamar de vilões da história, fogem completamente do comum nos filmes do gênero; os exemplos de sua maldade são mencionados apenas por boatos ou em atos entre os próprios, além de que nunca há um derradeiro encontro entre Blake e os três (na realidade, nenhum jamais vê o outro nitidamente), o filme foge do clássico duelo de armas como clímax. Esses três pistoleiros são o inverso de Blake e Ninguém, são completamente diferentes e a perseguição que efetuam por Blake é mais um estudo de seus contrastes.

      A jornada reflexiva sobre morte de Jarmusch é pontuada pela guitarra distorcida da trilha sonora feita por Neil Young, amigo pessoal do diretor, levando-nos a introspecção das reflexões de Blake mesmo nos momentos onde Ninguém discursa sobre os acontecimentos em sua vida.

      Dead Man é o inverso do que conhecemos como western, o protagonista é um ser que possui nada e nada tem para se apegar, que ele foge é claro, mas sempre se mostra mais preocupado com o fato de ter sido acusado injustamente de assassinato do que por estar com a cabeça a prêmio por toda a região. Assim, Dead Man não se propõe a respeitar a lógica de ação de um western, por muitas vezes os assassinatos ocorrem de maneira cômica, com a ironia sutil típica de Jarmusch.

      Usando o oeste como representação da tribo da qual Blake jamais poderia ser aceito, Jarmusch cria suas caricaturas dos clichês de personagens clássicos do western, as convenções de ação com seus duelos e cenas de tensão dão lugar para um filme de ritmo lento, dando mais lugar para a própria proximidade da morte do que para uma expectativa de qualquer tipo de ação.

Phillip Gruneich

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