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Doutor Fantástico

Começo: general louco, fluidos.

Assim é Dr. Fantástico, aparentemente simples: a base do General Jack D. Ripper; a Sala de Guerra; o avião atômico. Na primeira, o General Ripper sufoca com seus planos, divagações e explosões o Capitão Lionel Mandrake; na Sala de Guerra, o Presidente Merkin Muffley tenta tortamente se comunicar com o premier soviético, enquanto se reúne com capitães e políticos para discutirem a situação iminente; no avião, desregulados e incertos defensores da nação e sua missão a cumprir.

Essa comédia de Kubrick, desmedida, ou retorcida, causa uma abstração no espectador, um rebatimento do que será exposto – os duplos sentidos e ironias aparecem, jogam. Desde ironias muito visíveis (literalmente, no filme), como “Paz é nossa profissão”, a mais detidas e quase despercebidas, como a relação entre Playboys e mulheres de poderosos…Tudo pode ser suposto aqui, aliás.

A maneira como lida com os personagens também causa estranhamento, eles não dominam, mas passam à revelia da câmera, e ela deles. E também muito presente como questão no filme está a representação da(s) identidade(s), aspecto o qual os personagens do filme demonstram esbanjar. Os três personagens de Peter Sellers, o diplomático presidente, o nazista robótico e o capitão britânico; o general exacerbado; o general libidinoso, o major texano, todos têm o tempo que lhes cabe no filme.

Não nega o nonsense, mas este escrachamento da comédia serve absolutamente como direção a pontos não tão fictícios – que constantemente cercavam o filme, como na cortada luta de tortas na sala de Guerra, em que o presidente é acertado, e o General Turgidson diz “Cavalheiros! Nosso galante jovem presidente acabou de ser deposto em suas primárias!", quando segue o assassinato de John Kennedy. Quanto a americanos, eles variam: de prepotentes lunáticos – como o General Ripper e o Dr. Fantástico (embora este seja alemão) – a estúpidos ingênuos – os soldados. A insanidade e a infantilidade convivem juntas nesses americanos, tanto no General Ripper quanto no texano man em suas múltiplas emoções (seja prazer, alegria, queda, agonia, que se sabe?)

O acontecimento: o bombardeio. Dá-se ao acaso, e assim desliza. Uma narrativa de tom debochado, mas que desperta uma singela dúvida sobre como ou por que problemas são gerados, guerras engajadas; por uma falta de comunicação entre países, casualidade desconhecida, princípios nucleares (em ambos os sentidos da palavra)? A confusão que domina essa guerra não se pretende ser explicada. 

Rafael Grigoletto

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