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Eraserhead

“In heaven everything is fine”.

    No seu primeiro longa-metragem já está presente as marcas do que seria a linguagem cinematográfica (e das artes plásticas) lynchiana. Encontramos os recursos que estão mais interessados em mostrar o lado desfocado de uma existência não muito plausível. Um universo que nos injeta, em seus “zooms in”, em profundas e obscuras valas, para descobrirmos a essência de um real bem mais aterrorizante. Aqui começa a busca de exteriorizar o subconsciente.

    E para isso, Lynch cria seu universo, tomado pelas sombras, por palcos e suas cortinas, por mulheres psicóticas, por femme fatales morenas, por estradas, por aberrações, pela desconstrução de uma linearidade falsa que não satisfaz e não traduz a forma do pensamento.

    Em Eraserhead nos deparamos com Henry Spencer, um operário em férias, assim como aparenta estar toda a cidade, esta em férias permanentes, é um local desértico, decrépito, que faz do protagonista uma engrenagem fora de eixo, assim como a trilha sonora. Harry tem com Mary X um filho, ou como ela diz “ainda é incerto que seja um bebê”. A criança é um ser mutante, com feições reptilianas, que produz estranhos sons. Mary abandona o filho com Henry, e este se vê na árdua tarefa de criar a aberração que pôs ao mundo.

    Essa bem que poderia ser a história de um melodrama familiar de uma possível impossibilidade paterna, ou mesmo de uma obra própria do gênero que o filme compactua, o midnight movie, com seus monstros anti-sociais, mas não é isso que Lynch procura, sua busca é por um sujeito e seus medos ocultos, em que penetramos a sua mente e ele se torna real. Em um turvo e claustrofóbico apartamento de um quarto nos é mostrada a história do não ser, da não escolha.

     Henry parece absorto na incredulidade que a vida escolheu pra si, não esboça reação, sua verdadeira ação se dá em espécie de devaneios, onde encontramos seu imo e seus anseios, a procura de uma felicidade não obrigatória, o seu desejo reprimido pela bela vizinha morena, pelo “jogar na parede” as criaturas que sua esposa pariu dormindo. São nos sonhos que Lynch vê uma razão admissível para os atos cotidianos, eles são a verdadeira realidade. A catarse da poética de Lynch.

    Depois de se encontrar com “A mulher do radiador”, essa que diz que “no paraíso tudo está bem”, Henry tem uma epifania, é uma saída, ou melhor, uma escolha. Escolhe por acabar com tudo. Ele pode mudar o curso de sua vida e a primeira medida é ter sua cabeça como uma borracha, e esquecer. A alma e o corpo gritam. A raiz sangra. O universo que o controla está destruído. Henry está iluminado no céu.

    O que mais causa estranhamento nas obras de Lynch não é o desconhecido, e sim, o conhecido, o encarar a verdade. A busca pela desconstrução formal da linguagem cinematográfica e pela construção de um sujeito lynchiano começou aqui e será seguido em suas próximas obras como em Twin Peaks (1990), A Estrada Perdida (1997), Cidade dos Sonhos (2001), entre outros. 

Rodrigo Ramos

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