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Johnny Guitar

A programação desse módulo do Cineclube Rogério Sganzerla procura fugir de uma idéia clássica de gêneros. Não só por definí-los como um conjunto um tanto arbitrário de filmes, mas por buscar estudar alguns gêneros menores ou marginais. Seria, aparentemente, estranho iniciar esse módulo com um western, um gênero consagrado e amplamente estudado. Contudo, existe, tanto no western, quanto nesse filme de Nicholas Ray, uma estranheza e uma peculiaridade que os tornam mais do que dignos de serem exibidos.

É raro, hoje em dia, acompanhar a estréia de algum western no cinema. Gênero que já foi muito popular em determinada época, hoje encontra pouco espaço em meio à indústria hollywoodiana. De qualquer maneira, suas convenções ainda são reconhecidas à milhas de distância, basta bater o olho e constatar que se está frente a um western. Não há dúvida de que é um gênero genuinamente americano, que remete à História dos Estados Unidos, sobre a violenta formação de uma nação. Se o western tornou-se popular pelo mundo inteiro, isso depende menos do interesse dos outros povos por essa História particular e mais dos mitos que o gênero gerou: o maniqueísmo entre o bandido e o mocinho, evidenciado pelas cores das roupas; as tramas de vingança, de restauração de honra; a mulher pura que precisa ser conquistada e a perversa que precisa se redimir; os duelos ritualísticos e as mortes necessárias para que a ordem se mantenha.

É a partir disso que Nicholas Ray desenvolve o seu Johnny Guitar. O personagem que dá título ao filme é um pistoleiro que renuncia às armas em nome da mulher que ama, Vienna. Ela adquiriu terras e construiu um bar em um lugar isolado, onde soube que a estrada de ferro ia passar, valorizando a região. Mas as pessoas de uma cidade próxima, liderados por Emma, uma latifundiária ambiciosa, querem a todo custo expulsá-la. O grande conflito do filme é entre essas duas mulheres, Vienna e Emma, potencializado por um terceiro fator: Kid Dançarino, um pistoleiro canastrão, lider de um bando e que flerta com ambas. Emma irá promover uma verdadeira caça às bruxas contra Vienna e o bando de Kid, sob a vaga suspeita de que eles assaltaram uma diligência. As acusações falsas e a massa pronta para linchamento em nome de um "bem maior" num uma alegoria ao McCarthyism do início da década de 50. A relação é evidente, e a coragem de Ray de tratar o assunto, mesmo que de maneira disfarçada, é louvável.

Sabemos que há uma história pregressa entre Vienna e Johnny, o filme começa já no meio do caminho, revelando os dilemas desses personagens maduros, já escolados no gênero que estão inseridos, arquétipos da tradição do western. O que Nicholas Ray nos dá desse passado é apenas o suficiente para desenvolver os conflitos atuais, não sabemos exatamente o que aconteceu entre Vienna e Johnny, nem pelo que ela teve que passar durante os 5 anos que os dois ficaram separados. Seja qual tenha sido seu passado, o importante é que a partir dele Vienna tornou-se essa mulher forte, que procura domar o seu próprio destino.

Estamos aqui tratando de um filme consciente da existência de um passado, tanto dentro quanto fora da diegese. Todo o estabelecimento de um poder patriarcal parece abalado, uma vez que Vienna e Emma que fazem a ação transcorrer. Todos os homens parecem depender da posição dessas duas mulheres para então fazer o seu movimento. A inversão do que se espera dos personagens masculinos e femininos é notável, principalmente por que a mise-en-scène trabalha para ressaltar o fato, através principalmente de um figurino de cores marcadas, revelador das relações primordiais da trama. Quando Nicholas Ray realiza Johnny Guitar, o western já atingiu o seu ápice, já foi exaustivamente explorado por Hollywood. Compreende-se então que ele se sinta tão à vontade para retrabalhar as convenções do gênero, usar o mito para falar do mundo e do cinema. 

Thiago Santana

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