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Uma Mulher é Uma Mulher

“Não sei se isso é uma comédia ou uma tragédia. Em todo caso é uma obra prima”

Émile Récamier

Na seqüência das homenagens anárquicas ao cinema americano, que teve início com o “policial” Acossado (À bout de souffle, 1960), Godard agora “ataca“ o musical de Hollywood. Uma mulher é uma mulher é um “musical neo-realista”, como o próprio diretor afirma, é uma contradição em termos.  E é a incoerência provável que estimula a paixão primeira em seus filmes, o próprio Cinema. Os filmes Godard são uma sopa de letrinhas de um glossário que apetece aos paladares de quem ama, verdadeiramente, a sétima arte.

Nessa reconstrução do gênero, a música não tem um papel principal narrativo, tirando apenas uma canção que Angela (Anna Karina) canta e a música “Tu t’laisses aller” de Charles Aznavour, a história é pontuada por uma orquestração que por muitas vezes confronta o que é encenado, tornando-se como um melodrama às avessas. Já seria uma possível tendência e demonstração Vertoviana de radiopravda? A música aqui delineia o tom tragicômico da vida, fugindo da leveza de um musical “com Cyd Charisse, Gene Kelly e coreografia de Bob Fosse”.

Estando a Nouvelle Vague consagrada, Godard aponta sua câmera para o próprio movimento. Não é mais necessário recorrer, apenas, aos seus clássicos: o Cinema Novo construiu o seu eterno, e ele sabe disso. “Está passando ‘Acossado’ Na TV”; “Como vai Jules e Jim? (pergunta feita à Jean Moreau); “Atire no pianista?

Como um bom Rouchiano, é a verdade no cinema o que interessa. Godard aperfeiçoa os recursos de linguagem feitos em sua primeira longa metragem e introduz outros que ficariam marcados em sua filmografia, como os atores que Brechtianamente dirigem-se ao público, experimentações de cor e de som, as inúmeras referências fílmicas e literárias, o uso de legendas na narrativa e a descontinuidade.

Mas não é apenas de “O Cinema” que trata Uma mulher é uma mulher. A primeira paixão do filme é a própria Mulher. Godard faz Cinema falando de Cinema para nos mostrar o lado inverso da criação, a arte criando a musa inspiradora. Uma Mulher que renascia nos anos 60, independente, conhecedora e buscadora dos seus direitos. Mas longe de um feminismo castrativo em que mulheres e homens são iguais, ao contrário, uma Mulher que preza o sentimento acima de tudo, mas não se aliena numa vida doméstica.

Incrementando o hibridismo de seu filme, Godard introduz cenas “pinçadas” das pessoas que desajeitadamente encaram a câmera, transformando-se em um filme etnográfico, o “Eu, um branco” parisiense, curta cena justaposta com o diálogo de Angela e Suzanne que parecem não pertencer ao mundo político, muito menos ao doméstico. O desprezo para a humanidade.

Rodrigo Ramos

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